Os Grupos SanguÃÂÂÂÂneos
Maria Teresita Bendicho
Farmacêutica BioquÃÂÂÂÂmica do Hospital Universitário Prof. Edgar Santos (HUPES)
Universidade Federal da Bahia - Ufba.
INTRODUÇÃO
Foi no século XX que a transfusão de sangue, adquiriu bases mais cientÃÂÂÂÂficas. Em 1900 foram descritos os grupos sanguÃÂÂÂÂneos A, B e O por Landsteiner e em 1902 o grupo AB por De Costello e Starli. A descrição do sistema Rh foi posterior (1940), por Landsteiner e Wiener.
Os grupos sanguÃÂÂÂÂneos são constituÃÂÂÂÂdos por antÃÂÂÂÂgenos que são a expressão de genes herdados da geração anterior. Quando um antÃÂÂÂÂgeno está presente, isto significa que o indivÃÂÂÂÂduo herdou o gene de um ou de ambos os pais, e que este gene poderá ser transmitido para a próxima geração. O gene é uma unidade fundamental da hereditariedade, tanto fÃÂÂÂÂsica quanto funcionalmente.
SISTEMA ABOHá vários grupos sangüÃÂÂÂÂneos herdados independentemente entre si. São conhecidos diversos sistemas de grupo sangüÃÂÂÂÂneos.
Entre eles podemos citar os sistemas ABO, Rh, MNS, Kell, Lewis, etc. O sistema ABO é o de maior importância na prática transfusional por ser o mais antigênico, ou seja, por ter maior capacidade de provocar a produção de anticorpos, seguido pelo sistema Rh.
Os antÃÂÂÂÂgenos deste sistema estão presentes na maioria dos tecidos do organismo . Fazem parte deste sistema três genes A, B e O podendo qualquer um dos três ocupar o loco ABO em cada elemento do par de cromossomos responsáveis por este sistema.
Os genes ABO não codificam diretamente seus antÃÂÂÂÂgenos especÃÂÂÂÂficos, mas enzimas que tem a função de transportar açúcares especÃÂÂÂÂficos, para uma substância precursora produzindo os antÃÂÂÂÂgenos ABO.
O indivÃÂÂÂÂduo do grupo AB é possuidor de um gene A e de um gene B, tendo sido um herdado da mãe e o outro do pai. Ele possui nos seus glóbulos vermelhos os antÃÂÂÂÂgenos A e B, seu genótipo é AB.
No caso do grupo O, foi herdado do pai e da mãe o mesmo gene O. O gene O é amorfo, isto é, não produz antÃÂÂÂÂgeno perceptÃÂÂÂÂvel. As células de grupo O são reconhecidas pela ausência de antÃÂÂÂÂgeno A ou B. Quando o gene O é herdado ao lado de A, apenas o gene A se manifesta; e se é herdado ao lado do gene B apenas o gene B se manifesta.
Ao realizarmos os testes rotineiros em laboratório, não podemos diferenciar os indivÃÂÂÂÂduos BO e BB, e nem AO e AA. Os sÃÂÂÂÂmbolos A e B, quando nos referimos a grupos, indicam fenótipos, enquanto que AA, BO etc. são genótipos (ver quadro abaixo).
FENÓTIPO |
GENÓTIPO |
A |
AO |
A |
AA |
O |
OO |
B |
BO |
B |
BB |
AB |
AB |
É dito homozigótico quando o indivÃÂÂÂÂduo é possuidor de genes iguais (AA, BB, OO), e heterozigótico quando os genes são diferentes (AO, BO, AB)
A CLASSIFICAÇÃO SANGÜÃÂÂÂÂNEA
A determinação do grupo sangüÃÂÂÂÂneo deste sistema, é feito usando dois tipos de teste.
1o – Através da identificação da presença de antÃÂÂÂÂgenos nos eritrócitos, usando reativos compostos de anticorpos conhecidos (anti-A, anti-B, anti-AB). Esta é a chamada classificação ou tipagem direta .
2o – Através da identificação da presença de anticorpos no soro/plasma usando reativos compostos de antÃÂÂÂÂgenos conhecidos (hemácias A e hemácias B). Esta é a classificação ou tipagem reversa (ver quadro abaixo).
GRUPO SANGUÃÂÂÂÂNEO |
SORO DE TIPAGEM Anti-A Anti-B |
HEMÃÂÂÂÂCIAS DE TIPAGEM A B |
ANTÃÂÂÂÂGENO |
ANTICORPO |
||
A |
+ |
- |
- |
+ |
A |
Anti-B |
B |
- |
+ |
+ |
- |
B |
Anti-A |
AB |
+ |
+ |
- |
- |
A e B |
Ausente |
O |
- |
- |
+ |
+ |
- |
Anti-A e anti-B |
Regularmente as pessoas expostas a um antÃÂÂÂÂgeno que não possuem, podem responder com a produção de um anticorpo especÃÂÂÂÂfico para este antÃÂÂÂÂgeno. Entretanto, há alguns antÃÂÂÂÂgenos que possuem uma estrutura que se parece muito com antÃÂÂÂÂgenos de bactérias e planta, aos quais estamos constantemente expostos. Nestes casos, ocorre a produção de anticorpos a partir do contato com as bactérias e plantas, e não ao antÃÂÂÂÂgeno eritrocitário.
Neste grupo encontramos os antÃÂÂÂÂgenos do sistema ABO. Por este processo, os indivÃÂÂÂÂduos com idade superior a seis meses, possuem o anticorpo contra o antÃÂÂÂÂgeno que não tem, pois já foram expostos a essas bactérias e plantas, através da alimentação. Estes anticorpos são chamados de isoaglutininas ou aglutininas naturais.
Observando o quadro acima podemos perceber a presença dos antÃÂÂÂÂgenos e anticorpos em cada grupo sanguÃÂÂÂÂneo. É nesta presença ou ausência de antÃÂÂÂÂgenos e anticorpos que se baseia a tipagem sanguÃÂÂÂÂnea e a escolha do sangue a ser transfundido.
As transfusões podem ser:
A escolha do sangue se baseia em que o indivÃÂÂÂÂduo não pode ser transfundido com um sangue que possua um antÃÂÂÂÂgeno que ele não tem, pois o anticorpo presente no seu plasma, contra esse antÃÂÂÂÂgeno, iria reagir com essas hemácias transfundidas. Em vista disso e observando o quadro acima, fica claro que um indivÃÂÂÂÂduo do grupo A não pode tomar sangue B e assim por diante.
Sempre que possÃÂÂÂÂvel deve se transfundir sangue isogrupo, pois se por exemplo, transfundimos um sangue do grupo O a um paciente do grupo A, junto com as hemácias transfundidas temos uma quantidade de plasma onde há anticorpo anti-A, que poderá reagir com as hemácias deste paciente causando um grau de hemólise maior ou menor, mas que poderá ter um significado a depender do quadro clinico do paciente. Cada caso deve ser analisado pelo hemoterapeuta .
Este sistema ABO, também pode ocasionar incompatibilidade materno-fetal, com desenvolvimento da doença hemolÃÂÂÂÂtica peri-natal. Apresenta também importância em transplantes renais ou cardÃÂÂÂÂaco, com menor papel nos hepáticos ou de medula óssea. Em alguns processos pode ocorrer a perda parcial do antÃÂÂÂÂgeno A ou B, como em algumas leucemias.
SISTEMA Rh
Quando referimos que o indivÃÂÂÂÂduo é Rh Positivo, quer dizer que o antÃÂÂÂÂgeno D está presente. O antÃÂÂÂÂgeno D foi o primeiro a ser descoberto nesse sistema, e inicialmente foi considerado como único. Além deste, foram identificados quatro outros antÃÂÂÂÂgenos C, E, c, e, pertencentes a este sistema. Após os antÃÂÂÂÂgenos A e B (do sistema ABO), o antÃÂÂÂÂgeno D é o mais importante na prática transfusional.
Em algumas situações podemos ter uma expressão fraca do antÃÂÂÂÂgeno D . Isso pode ocorrer por:
Estes casos são chamados na prática de Rh fraco, e se refere ao que era conhecido anteriormente como Du.
Ao contrário do que ocorre com os antÃÂÂÂÂgenos A e B, as pessoas cujos eritrócitos carecem do antÃÂÂÂÂgeno D, não tem regularmente o anticorpo correspondente. A produção de anti-D quase sempre é posterior a exposição por transfusão ou gravidez a eritrócitos que possuem o antÃÂÂÂÂgeno D. Uma alta proporção de pessoas D-negativas que recebem sangue D-positivo produzem anti-D.
Se encontramos um anticorpo deste sistema podemos concluir que ocorreu uma imunização através de uma transfusão ou de uma gravidez. Qualquer antÃÂÂÂÂgeno deste sistema é capaz de provocar a produção de anticorpos, e assim a gerar situações de incompatibilidade.
Aloimunizações contra antÃÂÂÂÂgenos E, c, e, C são também observadas em pacientes politransfundidos, mas com uma freqüência inferior.
A maioria dos casos de Doença HemolÃÂÂÂÂtica do Recém-Nascido (DHRN) é devida ao anti-D. A profilaxia por imunoglobulinas anti-D diminuiu o número de aloimunizações maternas contra o antÃÂÂÂÂgeno D, mas não contra E, c, e, C
Na rotina, é realizada a tipagem, apenas, para o antÃÂÂÂÂgeno D nesse sistema. Os outros antÃÂÂÂÂgenos (E, C, c, e), são determinados em situações onde ocorre incompatibilidade, e é necessário obter sangue que não possuam algum desses antÃÂÂÂÂgenos.
A produção de anticorpos contra estes antÃÂÂÂÂgenos ocorre de forma semelhante a produção de anti-D. A capacidade de provocar a produção de anticorpos destes antÃÂÂÂÂgenos varia. Partindo do mais imunogênico, temos D > c > E > C > e.
TRANSFUSÃO
Para efeito de transfusão, é considerado que pacientes Rh positivos podem tomar sangue Rh positivo ou negativo, e que pacientes Rh negativos devem tomar sangue Rh negativo.
Para os pacientes D fraco, existem alguns critérios a serem observados. Se o antÃÂÂÂÂgeno D está enfraquecido por interação gênica, estando o mesmo presente integralmente, o paciente poderá tomar Rh positivo ou negativo. Porém nos casos em que o antigeno D está enfraquecido por ausência de um dos componentes, pode ocorrer produção de anticorpos contra o antigeno D na sua forma completa. Como rotineiramente, não identificamos a causa que leva a expressão enfraquecida do antÃÂÂÂÂgeno, acostuma-se a dar preferência a usar sangue Rh negativo para os pacientes Rh fraco. (1)
Existem situações clÃÂÂÂÂnicas onde é necessário avaliar o risco X benefÃÂÂÂÂcio, e fazer outras opções. Neste momento é necessário o acompanhamento do hemoterapeuta.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÃÂÂÂÂFICAS:
1.Harmening,D. Técnicas Moderna em Banco de Sangue e Transfusão. Rio de Janeiro, Editora Revinter Ltda, 1992
2.Melo,L e col. Imunohematologia Eritrocitária - STD - Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, 1996
3.Novaretti,M.C.Z. Sistema de Grupo SanguÃÂÂÂÂneo ABO . Hematologia Hemoterapia . 1: 36-16, 1996
4. Novaretti,M.C.Z. Sistema de Grupo SanguÃÂÂÂÂneo Rh . Hematologia Hemoterapia . 1: 10-16, 1996
5.Oliveira,M.C. ; Góes,S.M , Imunologia Eritrocitária - Práticas, Rio de Janeiro, MEDSI , 1998
6. Ortho Diagnostics, AntÃÂÂÂÂgenos e anticorpos aplicados aos sistemas ABO e Rh, 3a edição, 1978
7.Verrastro,T. e col. Hematologia e Hemoterapia . Fundamentos de Morfologia, Fisiologia, Patologia e Clinica. Editora Atheneu, 1996
8.Walker, R.H. Technical manual . 12 ed. Arlington,VA: American Association of Blood Banks, 1997
(*) Nossos agradecimentos especiais a autora. Texto elaborado com exclusividade para Hemonline© . Reprodução permitida desde que citada a fonte.